Amizade
Luíza, bastante apressada e ansiosa, resolveu chegar, com nove semanas de antecedência.Foi uma surpresa e tanto.Bentinho, que mal podia esperar para ver a filha, quando soube da notícia, não pensou duas vezes, largou tudo que estava fazendo no escritório e correu para o hospital.Nunca dirigiu tão rápido em toda sua vida, ultrapassou todos os sinais no transito e subiu pelas calçadas, as pessoas gritavam e xingavam todos os palavrões possíveis, mas Bentinho nem mesmo os ouvia, só conseguia pensar em chegar logo para poder ver sua esposa e sua filha, que segundo a sue amigo, estavam bem.
A gravidez havia sido complicada e Larissa sofreu muito durante a gestação, mas como dizia o velho amigo do casal, “graças ao bom Deus, deu tudo certo”, a menina nasceu com boa saúde, e a mãe estava viva, cousa que os médicos não haviam garantido. A felicidade era tanta que Bentinho quis fazer uma festa para comemorar a vinda da menina.
- Quero dividir com todos os meus amigos a alegria que estou sentindo por ser pai, ainda mais de uma menina tão linda como você, não é mesmo minha princesa.-Dizia ele enquanto fitava Luíza.
E foi o que ele fez. Um grande churrasco para os parentes e amigos mais chegados. Luizinho, que era seu amigo de infância não podia faltar, além de ser como um irmão para Bentinho Luizinho nomeara seu amigo como sócio da empresa, e graças a ele Bentinho conquistou estabilidade financeira para manter sua mais nova família. Não fazia mais que dois anos que havia se casado com Larissa.
-Deixa-me ver minha afilhada linda. -Disse ele aproximando-se de Larissa que estava com o bebê no colo. A menina era miúda e parecia ser tão frágil que algumas pessoas ficavam com medo de segurá-la. Mas era só a aparência de quando nascera, afinal de contas era um bebê prematuro.Mas Luíza cresceu e ganhou peso muito rápido, tornou-se uma criança totalmente saudável e com muita energia.
-Meu pai do céu, essa menina me destrói tudo! Gritava a mãe desesperada.
-Ah, criança é assim mesmo, e além do mais é você quem deixa as coisas ao alcance dela. -Respondeu Bentinho pegando os pedaços de uma pedra de cristal que Larissa havia ganhado. A amiga que deu o presente disse que era para trazer boas energias.
Bentinho acabava sendo mais paciente com Luíza, talvez porque não estivesse com a menina o tempo todo, devido ao trabalho no escritório, como a mãe. A cada final de semana ele inventava um passeio diferente para levar sua família, mas nem sempre Larissa os acompanhava, muitas vezes o pai acabava indo sozinho com a filha. Uma hora era no parque de diversões, outra no teatro, no shoping, isso quando não pegava o carro e descia a serra para ir a praia. Mas Luíza não se importava muito com o lugar, a menina ficava tão feliz ao lado do pai, que pra ela não fazia diferença estar num nem belo parque ou na pracinha que havia perto de sua casa.
Quando Luíza completou sete anos de idade Bentinho lhe deu uma boneca.Os cabelos eram longos e loiros e o vestido na cor rosa com detalhes em branco.Logo a boneca se tornou a preferida da menina. Escolheram por chamá-la de Beti, quando seu pai lhe deu a tal boneca, também revelou um segredo. Disse a Luíza que as bonecas tinham vida própria quando não havia seres humanos por perto, disse também que elas eram rápidas demais ao se moverem, e por isso nunca ninguém descobriu.
-E como você sabe disso papai?
-Eu tenho um amigo que fabrica brinquedos e ele sabe de tudo, mas só me contou porque sabe que eu sou de confiança. E agora só estou lhe contando porque confio em você também. Não vai me decepcionar em princesa?
A partir daí Luíza não largou mais a boneca, para todo lugar que fosse, Beti tinha que ir também. Tornaram-se amigas inseparáveis. Luíza sempre pedia para que Beti conversasse com ela, mas ela não respondia.
-Beti, fala comigo...Sou sua amiga e não vou contar pra ninguém seu segredo. Eu prometo...
Às vezes Luíza saia do quarto à noite, e voltava bem de fininho para ver o que Beti aprontava quando ela não estava por perto, mas ou a boneca era muito rápida mesmo, ou era porque desconfiava da intenção da menina ao sair do quarto e não se movia.
Mas teve um dia que Luíza foi mais esperta que Beti, Luizinho a chamava para sair, já que o pai da menina não estava presente por motivo de trabalho, que deixara acumular no escritório.Então Luíza fechou Beti no quarto e a deixou sentada em sua poltrona rosa, que dava de frente com a porta. Ao olhar pelo buraco da fechadura Luíza não podia acreditar no que seus olhos viram...Era Beti, sua boneca preferida, a amiga para a qual contava todos os seus segredos... Cantava e dançava ao som da música que Larissa ouvia alto. Parecia uma bailarina, seus passos eram perfeitos, sua leveza encantava a qualquer um. E Luíza ficou ali, parada e boquiaberta, por um bom tempo. Não conseguia parar de espiar pela fechadura, foi quando Luizinho apareceu e disse em voz alta:
-Oi Lu!...Você não vai levar a Beti pra passear com a gente? -Luíza assustou-se, e para não dizer nada a ele, desceu as escadas correndo para contar ao pai o que viu.
-Mamãe eu preciso ligar para o papai.
-Não meu amor, seu pai está trabalhando, mais tarde você fala com ele.
Luíza não insistiu muito, porque só depois pensou na possibilidade da mãe ouvir a conversa. Mas também não quis ir para lugar nenhum, foi para o quarto e contou para Beti tudo o que viu, dizendo a ela que não precisava mais esconder nada.
-Tudo bem, acho que posso confiar em você. Mas Luíza isso é muito serio ninguém pode saber. -Dizia a boneca
As duas amigas conversaram a tarde toda, a voz de Beti era tão doce e suave, que Luíza ficou mais encantada ainda. Era um sábado e já passava das nove da noite, quando Luizinho entrou no quarto da menina e disse:
-Precisamos conversar minha lindinha!
-Cadê o papai?
-É exatamente sobre isso que vamos conversar.
Luizinho muito preocupado com a reação da menina escolheu muito bem as palavras para explicar o ocorrido, mas o sofrimento era inevitável. Como dizer a uma menina de oito anos de idade, que ela nunca mais veria o pai que tanto amava, como dizer a ela que a vida estava tirando-lhe uma pessoa tão especial, senão a mais especial de todas. Pensava ela agora, em todos os momentos que passara com o pai, nos passeios de barco, nas tardes de sol na praia, ou até mesmo quando brincava com seus amiguinhos na pracinha perto de casa e o ouvia chamar docemente:
-Vamos minha princesa, já esta ficando tarde.
Não foi possível controlar, a menina caiu no choro e nem a mãe conseguia acalmá-la. Foi uma noite de cão para todos os familiares e amigos, que sempre tomaram a família de Bentinho como exemplo, alguns até os invejavam, mas estava tudo acabado, Luizinho contou a história que ouvira de um pedestre que estava presente no momento do acidente, mas o mesmo logo desapareceu. Foi um bêbado estúpido, que vinha na contra mão,quem causou o acidente, tirou a vida de um homem de família. Bom pai, bom marido e bom amigo! Luíza e Larissa que o diga.
Larissa colocou a filha pra dormir e ficou ao lado da menina até que seus olhos fechassem. Assim que a mãe saiu do quarto, Luíza levantou-se, pegou a boneca no colo e perguntou:
-Por que Deus deixou meu pai morrer?
-Luíza não fica triste. Deus só quis levá-lo pra perto dele um pouco mais cedo, além disso, seu pai esta muito chateado com você, ele não gosta de te ver assim. Ele pediu para eu dizer, que te ama muito e que vai ficar te olhando lá de cima enquanto vocês não se encontram.
-Você pode falar com ele?!
-Sim, e você também, ele estará sempre por perto, e te responderá, se você assim acreditar. É só você prestar atenção nas coisas ao seu redor.
-Mas eu não posso vê-lo?
-Luíza você pode tudo é só acreditar, pense que é o amor que vocês sentem um pelo outro que os mantêm vivos. Quando seu pai estava trabalhando você também não podia vê-lo, não é mesmo?
-É.
-Mas é só fechar os olhos que você o verá. Por que você não tenta?
Luíza adormeceu tranquilamente Sonhou a noite toda com pai, e no sonho Bentinho confirmara tudo que Beti dissera a menina. No dia seguinte Luíza contou a sua mãe que sonhou com o pai. Larissa abraçou a menina, muito aliviada por não vê-la chorando novamente. Foi quando Luizinho entrou e abraço-as afetuosamente. Larissa e Luizinho ficaram ali por um bom tempo, abraçados e mirando-se um ao outro. O amigo como sempre estava presente e agora com certeza cuidaria da mulher e da filha de seu melhor, senão único amigo.
Almeida, Juliana Aparecida.